Conheci o Marcos a rezar, a participar na Eucaristia e a confessar-se, cerca de cinco anos antes de entrar no seminário e de voar para o céu, depois do lamentável acidente que no-lo ocultou aos olhos deste mundo, mas que o tornou ainda mais presente, vivo e ativo, se é que isso é possível, do que até esse momento. No Santuário de Santa Gema veem-se, com muita frequência, jovens universitários que vêm rezar, confessar-se e participar na Eucaristia; é muito reconfortante constatar que há jovens amigos de Deus que O procuram e «marcam encontro» com Ele para Lhe contar as suas coisas, escutá-Lo e partilhar experiências. É animador observar como rezam, como lutam, como creem e como crescem.
Um desses jovens que me chamou a atenção foi o Marcos. Quase diariamente, geralmente de manhã, vinha e ficava, ajudado por um livro ou simplesmente concentrado diante do Sacrário, sempre com a sua mochila cheia de apontamentos da universidade. Era perseverante, e a sua compostura era típica de um homem que leva coisas importantes por dentro. Transmitia paz e, no meu caso, uma alegria grande, edificante, que me levava à ação de graças.
Um dia conheci-o mais pessoalmente quando o ouvi em confissão. Confirmei-me na minha impressão e vi nele uma alma requintada, um coração sincero, um olhar limpo, um buscador incansável. Em todas as ocasiões em que o escutei em confissão constatei sempre um amor apaixonado a Jesus. Quando veio da Terra Santa e me contou a sua viagem, só falou de Jesus, da sua Palavra, da sua Presença, do seu encontro pessoal com Jesus. Quando regressou da sua viagem ao México, estava transbordante de alegria por ter dado testemunho de Jesus e sentir-se instrumento da Graça.
A última vez que o vi foi uma semana antes de entrar no seminário. Lembro-me de o ver entrar no confessionário e, quando lhe vi a cara, intuí que algo muito importante me queria revelar. E assim foi. «Acabei o curso e vou para o Seminário». Não pude deixar de me levantar e de lhe dar um abraço, sem palavras e com os olhos lacrimejantes, de imensa alegria. Vi nele um homem feliz, convencido, decidido a dar a vida a Quem tanto o amava, Jesus. Esses são momentos sacerdotais únicos que enchem de esperança e suavizam outros momentos de tristeza e desencanto.
O Marcos estava feito para ser sacerdote, para ser ponte para Deus, para anunciar Jesus, para consolar, para servir, para se dar. Chorei de alegria. Nestes anos em que tive o privilégio de o conhecer e de conviver com ele, vi-o crescer no amor a Cristo de forma perseverante, firme, madura; a sua maturidade espiritual era imprópria, ou melhor, invulgar para a sua idade. O que me cativou na sua personalidade foi o seu amor apaixonado a Jesus Cristo. Procurou-O, encontrou-O, seguiu-O, apaixonou-se, entregou-Lhe a vida e foi-se com ELE.
Quando, no domingo, depois de celebrar a Eucaristia, me deram a notícia da sua morte, fiquei paralisado. Mas logo compreendi algumas coisas. A morte do Marcos fez-me muito bem e, por isso, causou-me muita dor. «Os meus planos não são os vossos planos». Considero que a sua morte foi como a sua «primeira missa»; estava tão apaixonado por Jesus que não pôde resistir nem esperar pela sua ordenação sacerdotal para a celebrar. Uniu-se a Cristo, viveu com Ele, morreu com Ele e com Ele ressuscitará.
A vida do Marcos tem um selo inconfundível: ser um jovem cristão «modelo» para a juventude. Confio que um dia possa ser proposto pela Igreja aos jovens, como exemplo a seguir.
Carlos Cano c.p.
Santiago do Chile, abril de 2016
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